edição: 9 número: 9ano: 2016período: Janeiro-Junho 2016  

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Apresentação

Esta edição 9 da Rebeca traz um dossiê dedicado aos estudos de som no audiovisual, uma área de pesquisa pouco explorada no Brasil até o final dos anos 1990, quando os primeiros trabalhos vinculados a ela começaram a surgir. A expansão do campo de pesquisa começou a se consolidar a partir de 2009, quando surgiu um seminário temático exclusivamente dedicado ao tema nos Encontros anuais da Socine. Desde então, o volume de artigos, ensaios, dissertações e teses dedicadas a pesquisas na área vem crescendo.

O dossiê da Rebeca, editado pelos pesquisadores Fernando Morais da Costa (UFF) e Rodrigo Carreiro (UFPE), segue uma trilha aberta por conjuntos semelhantes de ensaios publicados pelas revistas Ciberlegenda, da UFF (2011) e Contemporânea, da UFBA (2015). Ele reúne extratos de uma parcela significativa das pesquisas na área que vêm sendo realizadas no Brasil, incrementados por uma entrevista exclusiva realizada pelos editores e pela pesquisadora Suzana Reck Miranda (UFSCar), com a professora e teórica Claudia Gorbman, da University of Washington - Tacoma, Estados Unidos, pioneira dos estudos do som em âmbito internacional, e que tem nesta edição a primeira entrevista publicada em uma revista brasileira.

Uma segunda entrevista, realizada nos Estados Unidos por Débora Regina Opolski, aborda o campo do som no cinema de uma perspectiva empírica. Os entrevistados são Midge Costin e Douglas Vaughan, professores de sound design da University of Southern California, o mais prestigiado centro de estudos de cinema dos Estados Unidos. A dupla, dona de vastos e premiados currículos de trabalhos em Hollywood, como editora e microfonista, respectivamente, discute questões sobre a pedagogia dos estudos do som.

Ainda na área internacional, o dossiê traz o ensaio intitulado “'Sintoniza el sonido, agudiza tus sentidos': una aproximación a los videoclips de Los Prisioneros”, de autoria de Javier Osorio Fernández e Nayive Ananías Gómez, que examinam de forma precisa um grupo de quatro videoclipes da banda chilena Los Prisioneros, propondo um método de análise baseado em categorias de lugares e espaços.

Contemplando uma ampla diversidade de abordagens teóricas, os demais ensaios que compõem o dossiê enriquecem as discussões sobre o som no cinema brasileiro e internacional. O artigo "A segunda fase da conversão para o cinema sonoro no Rio de Janeiro (1929-1930)”, escrito por Rafael de Luna Freire, realiza um impressionante trabalho de resgate histórico, contribuindo para lançar luz sobre um momento pouco pesquisado (e pouco conhecido) da história do cinema no Brasil. Já o texto “Pensamentos e práticas sonoras no documentário: trilha sonora, experimentação e sound design”, de Renan Paiva Chaves, examina o grupo de documentaristas que inovou a forma do documentário na Inglaterra dos anos 1930 (período crucial para a consolidação dos modelos de gravação, edição e reprodução sonora) sob uma abordagem inventiva.

O ensaio "Grito e som nos limiares do cinema silencioso”, de Ciro Inácio Marcondes, é mais um caso de retorno aos primórdios, analisando modos como o grito – essa manifestação vocal prenha de significados não semânticos – foi utilizado em filmes de Robert Fleherty e Sergei Eisenstein. O texto "Jogo, trabalho, prostituição: o som em California Split de Robert Altman”, de autoria de Marcos César de Paula Soares, é outro exemplo de ensaio que contribui para iluminar um momento obscuro da história do cinema, analisando um filme pouco conhecido – e contraditoriamente muito importante – de um cineasta bastante destacado por pesquisadores da arte sonora.

Movimento semelhante realiza “O som no cinema marginal: José Agripino de Paula e a 'musica de fita’ na edição de som de Hitler 3o. Mundo”, de Simplício Neto Ramos de Sousa, mais um ensaio a destacar um momento de inovação e experimentalismo na construção sonora de um filme relevante, mas pouco assistido pelo grande público. Uma abordagem historiográfica e analítica próxima é trabalhada no artigo "As situações de escuta em O sol sangra e A poeira e o vento", em que Sérgio Puccini Soares trabalha com a promissora noção de “situação de escuta”, indo um passo adiante do mais conhecido termo “ponto de escuta”, popularizado por Michel Chion.

O tema da dissolução das fronteiras entre música e efeitos sonoros aparece pontualmente aqui e ali, e é alçado à condição de protagonismo no ensaio "Tão longe é aqui e a música dos ruídos: aproximações teóricas sobre aspectos do som no cinema contemporâneo”, escrito por Kira Pereira e Suzana Reck Miranda, e que reflete diretamente sobre o tema. Por fim, “O som do documentário: uma análise da narrativa biográfica de Coração Vagabundo”, de Marcia Carvalho, propõe uma análise detalhada e minuciosa do documentário sobre Caetano Veloso.

Na seção Resenhas e Traduções, ainda em forte articulação com a temática do dossiê, Ramayana Lira de Sousa (Unisul) verte para o português, em caráter inédito, o artigo "Teorizando o som ‘ruim’: o que põe o mumble no mumblecore?”, de Nessa Johnston (Universidade de Edge Hill, Inglaterra). Originalmente publicado pela University of Texas Press, o artigo discute o significado de “som ruim”, usando filmes do movimento mumblecore1 como estudo de caso. Ainda nesta seção, o artigo “Os jovens querem escutar música de qualquer jeito”, de Adriano Chagas, discorre sobre o livro Cultura ilegal: as fronteiras da pirataria, publicação de 2014 de Arthur Bezerra.

Na composição mais plural que caracteriza a seção Temática Livre, o artigo "A modernidade em Baile Perfumado e Cinema, Aspirinas e Urubus: a retomada do cinema produzido em Pernambuco”, de Renato Kleibson da Silva e Gilmar Santana, aponta para uma Retomada do cinema pernambucano a partir de dois filmes do período, ressaltando seu desejo de modernizar o passado e revigorar a produção local. Com um olhar sobre a economia do cinema brasileiro, o artigo "Os espaços do cinema de baixo orçamento no Brasil”, escrito por Karine Santos Ruy, propõe um mapeamento das políticas públicas em relação às produções de baixo orçamento no cinema brasileiro. Em "Além do acaso estúpido da química: o informe como manipulação do tempo, em Decasia, the state of decay, de Bill Morrison", Alexandre Rodrigues da Costa e Miriam Aparecida Mendes abordam as complexidades de tempo, memória e duração na manipulação de found footage em estado de precariedade na obra de Morrison. No artigo, "Absolutização do mediador: da censura prévia ao conhecimento prévio", Fábio de Godoy Del Picchia Zanoni discorre sobre o cineclubismo, problematizando as narrativas sobre a censura no Brasil e em Portugal. Ainda na seção de Temática Livre, temos um bloco de três artigos que gravitam em torno do gênero horror e da mitologia do monstro no cinema. Em “Da cintilância à explosão: a intermitência luminosa como forma horrífica espetacular”, João Vitor Resende Leal propõe uma relação entre a intermitência luminosa e a experiência espectatorial do cinema de horror. Do mesmo modo, em "A cultura participativa no cinema de horror contemporâneo: apontamentos sobre o found footage”, Claudio Vescia Zanini aborda aspectos da espectatorialidade, apontando para os graus de realidade e de cumplicidade que o found footage produz no cinema de horror contemporâneo. Fechando essa seção com artigo escrito em inglês, e intitulado “The Myth of the Monster”, ernando Vugman retoma a mitologia do monstro, traçando uma articulação metafórica com a figura do zumbi hollywoodiano.

Finalizando esta edição especial sobre os estudos de som, a seção Fora de Quadro apresenta "Notas sobre a captação sonora da festa de rua em Antônia (Tata Amaral, 2006)”, em que João Godoy descreve e reflete sobre os desafios e a complexidade da captação de som direto nessa sequência de rua do filme de Amaral, que buscava fugir a formas de representação tradicional, incentivando a liberdade de atuação em cena.

Por fim, gostaríamos de usar algumas palavras desta apresentação, as últimas, para fazer uma homenagem, uma das primeiras dentre outras que virão. O Seminário de Som cresceu, dentro dos Encontros da Socine, de forma paralela ao Seminário de Recepção. Por vezes, estivemos em salas vizinhas. Mahomed Bamba ajudou, no breve período no qual esteve conosco, a pavimentar o caminho dos estudos de África no cinema, e a criar na Socine um espaço para os estudos de recepção. Sua atuação na UFBA, seu sorriso constante e a magnitude de sua presença não serão esquecidas. Mais do que suas pesquisas, a pessoa, com a qual convivemos por tão pouco tempo, e que mexeu tanto com tantos de nós, permanece nas formas possíveis, na nossa memória e nas nossas palavras. Descanse, meu velho. Receba um abraço nosso, os que continuamos trabalhando. Aproveite as férias. Que teu profeta, aquele que teu pai tentou homenagear, esteja do teu lado. E que ele continue sem saber distinguir limonada de caipirinha.

Os editores da Rebeca 9, Alessandra Soares Brandão (editora-chefe), Fernando Morais da Costa e Rodrigo Carreiro (editores do Dossiê, da Seção Entrevistas e da Tradução) agradecem aos autores que contribuíram para este número e desejam a todos uma boa leitura!


1 Ciclo de produções norte-americanas de micro-orçamento, realizadas desde o princípio dos anos 1990, à moda dos preceitos do movimento dinamarquês Dogma 95, que se caracterizam por apostar em enredos desdramatizados sobre a letargia da geração jovem contemporânea, filmados com certo desleixo técnico.

 
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